quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Extinção

Provavelmente abrirei outro blog para enfrentar uma escrita mais séria. A daqui se vale do humor pra refugiar-se da publicação.

Enquanto isso penso na metafísica de um Desalex (Claritin e Allegra - alergia for infantiles).

Não foi tão boa? Ahm, e essa, do Drummond:

"É sempre nos meus pulos o limite."

A minha: "É sempre no insight o meu postit."


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Help!

Difícil dar credibilidade a um país que as pessoas se dão nomes como "Socorro."

sábado, 26 de setembro de 2009

É o limite.

A descrição mais próxima da celebração da vida que já li:

"Don't stop to think, don't interrupt the scream, exhale, release life's rapture. Everything is blooming. Everything is flying. Everything is screaming, choking on its screams. Laughter. Running. Let-down hair. That is all there is to life."

Gods, Nabokov.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Leituras de

Leitura de praia: biografia.

Leitura de banheiro: Lima Barreto, Mainardi, Francis, Rodrigues ou qualquer coisa que o valha.

Leitura de avião: policial, Chesterton, Holmes, Wodehouse.

Leitura de estudo: filosofia ou qualquer ciência digna.

Leitura de-vagar: clássicos.

Leitura pra entender mulheres:

Leitura de autoajuda: livros sobre como lidar com pessoas que lêem autoajuda.

Leitura pra toda a vida: a vida.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ainda bem que consegui definir.

A escrita é uma kryptonita que atrai.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Meu Deus, Fichte! - II

"Assim, a expressão da liberdade prepara-nos para o exercício ininterrupto e mais intenso da mesma: pela livre submissão dos nossos preconceitos e das nossas opinições à lei da verdade, aprendemos, antes de mais, a inclinar-nos e a emudecer ante a ideia de uma lei em geral; esta é a primeira a refrear o nosso egoísmo, que a lei moral quer governar."

Meu Deus, Fichte! - I

"Poder pensar livremente é a diferença distintiva entre o entendimento humano e o animal. Também neste último há representações; mas estas sucedem-se necessariamente umas às outras, produzem-se entre si, tal como um movimento numa máquina produz necessariamente outro. A superioridade do homem consiste na oposição activa a este mecanismo cego da associação de ideias em que o espírito se comporta apenas passivamente; em conferir, pela sua prórpria força, segundo o seu livre arbítrio, uma determinada direcção à sequencia das suas ideias; e quanto mais alguém afirma esta superioridade tanto mais homem é. A faculdade pela qual o homem é capaz desta superioridade é justamente aquela graças à qual ele livremente quer; a expressão da liberdade no pensar, tal como a sua expressão no querer, é uma componente íntima da sua personalidade; é a condição necessária sob a qual apenas pode dizer: eu sou, sou um ser autônomo. Esta expressão, tanto como aquela, grarante-lhe a sua relação com o mundo espíritual e estabelece-o em consonância com ele; pois, no reino invisível de Deus, dominará não só a unanimidade no querer, mas também no pensar."

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Só pensar insights.

Atualizando uma postagem antiga que pretendo levar adiante sempre:

- Shakespeare só escrevia citações.

- Luhmann só escrevia teses.

- Borges só escrevia traumas.

E têm dias que eu só penso insights. Pensar insights unicamente é um rolo só, você fica cercado de bons pensamentos de enorme potencial e é claro não desenvolve nenhum. Numa só imagem é como se você estivesse na praia em Veneza, na cabeça do Aschenbach e vários Tadziozinhos ficassem te infernizando, puxando sua roupa, lascando areia na sua cara, rindo sem parar num barulho (vozes da sua cabeça) difícil de afastar. A melhor solução para os dias que só se pensa insights é a seguinte: escreva desenfreadamente (limitação) que aí passa, é uma febre. Proust, por exemplo, teve ela por 27 anos aí escreveu três livros. Mas vai muito da pessoa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Racionalidade limitada.

Depois de uma intoxicação comum de estudos preliminares de qualquer ciência, novos vocabulários, lógicas próprias etc. já pude constatar não subscrevendo a ninguém dessa área (Coase, pessoal de custos de transação, Posner, escolhedores racionais) o seguinte:

"Há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã Economia."

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A estrutura do conhecimento.

Imagino o conhecimento composto por várias salas, cada qual seu tema. A sala do tempo, do trabalho, da ação, da moral etc. Tem gente que acessa essas salas de uma vez só (epifania) mas sai logo em seguida, num persiste. Agora pra toda sala há sempre um poeta jogado num canto injetando heroína, absolutamente todas, sem exceção. Imagino isso por conta dessa frase aqui, oh:

"Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim"

Do Freud.

domingo, 2 de agosto de 2009

Por essa eu não esperava

E eu nunca esperei. Das filas e das esperas num consultório havia um amplo espaço de tempo para um total descolamento da realidade. Apesar de gostar muito dela, os pensamentos sempre concorreram acirradamente. A espera pra mim sempre foi um evento, e não aquele devorar de horas sem sentido em que comemos o tempo na expectativa da consumação. Os livros também ajudaram, daí cumprir as burocracias à shakespeare (comédias). A espera é muito agradável pra quem a usa. Ela é o que ainda resta de atoice nesse mundo, como viagem longa de carro, falta de luz ou sensações de domingo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Proto-texto.

Aconteceu com meu autor e compensa contar. Anos atrás sua avó o benzia, como ele não era religioso, ia pela sensação. O ato lhe era estranho e místico, a avó sussurrava palavras que simulavam rezas atravessadas enquanto a boca estalava os finais de cada som. Terminava em sinais da cruz com água benta na testa e nos ombros, e a água estava sempre morna com gosto de guardado que ele tomaria o que sobrou no fim do ritual. A sensação era de um silêncio da alma, que se assemelhava à anamnese matinal que temos diante do guarda roupa, em que o tempo dilata cinco minutos até a eternidade. Mas havia algo a mais, porque lhe era consciente. Olhar pro guarda roupa, assim como abrir a geladeira pra pensar, era uma dispersão – ou como o povo diz, a tal morte da bezerra. Anos se passaram sem que meu autor conseguisse de novo alcançar aquela sensação, e eis que ela ocorreu no lugar mais impossível. Há um ano a trás, meados de julho, quando ele devolvia livros na biblioteca da EAESP, um velhinho que lá os verifica ao tomá-los de sua mão, fez com uma lentidão e uma gravidade tão intensas que causou nele o tal silêncio da alma. Meu autor tentou todas as formas de explicação racional possíveis, de encarar a verificação dos livros como um ato religioso, ou do jeito do velhinho tê-los entregado, de maneira lenta e certa. Nada o convenceu, coitado. Hoje ele continua com essa dúvida, e ainda promete explicá-la racionalmente. Mas, ao contrário dele, eu sei, sei bem porque leio Tomás de Aquino e tenho fé. Aquela sensação era Deus.

sábado, 18 de julho de 2009

Propaganda.

Publico aqui uma carta que enviei aos autores do blog dominodromo que tenho acompanhado a vertigem crescente. Só pra propagandear mesmo, porque eles merecem. Ah e a expressão "saúde e saudades" que eu desmaio de rir quando leio é atribuida a Lima Barreto numa carta que ele publica numa de suas crônicas, datada de 1920.

"OI PESSOAL, SAÚDE E SAUDADES.

VOU ENVIAR ESSA MUSICA AQUI NA LISTA DE VOCÊS PRA VER SE EU GANHO VIP. É DE UMA BANDA DE 'SICHEDELYC FOLK DE 70 EM QUE O VOCALISTA ACREDITAVA SER A REENCARNAÇÃO DE UM FARAÓ, SENDO UM DOS GRUPOS MENOS OUVIDOS NA LAST.FM (19 MIL OUVINTES). COISA DE GENTE SUBTERRÂNEA MESMO. ELE SE MATOU EM 91 E NINGUÉM SABE DA MULHER DELE, MORREU PORQUE NINGUÉM ACREDITAVA NAS SANDICES DAS LETRAS DA BANDA. ENVIO UMA DO PRIMEIRO EP DELES - COISA NOBRE, DUAS MÚSICAS, UMA ELE ATÉ MUDOU A LETRA DE "CRAZY ONE" PARA "QUASAR ONE", A OUTRA A FESTEJADA (não sei por quem) "IN MY MIND'S EYE". ESTA, É UMA CÉLEBRE EXPRESSÃO ATRIBUIDA PRIMITIVAMENTE A HAMLET, DENTRO DE SHAKESPEARE, NESTE TRECHO:

HAMLET: My father! - methinks I see my father.
HORATIO: Where, my lord?
HAMLET
: In my mind's eye, Horatio. "

MEU DEUS O AR QUE EU RESPIRO! (cersibon)


*http://www.youtube.com/watch?v=4UBwrD5jhd8
até mais ver.
--
Pedro Cunha.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Racismo a favor da Itália.

Pacifiquei essa ideia, antes nublada por pensamentos que simulavam tempestades, de procurar nas mulheres mais estonteantes um denominador comum. Tacando tudo quanto é subjetividade fora, e prezando só pelo estético da coisa mesmo, a minha ideia de um ménage a trois com suecas loiras, ou um desencontro com uma russa pálida de olhos celestiais, encontra conforto não nesses lugares comuns masculinos, mas sim na cor mediterrânea. Talvez o fascínio pela ambigüidade e, sim sim, pelo humano, produza em mim um resultado estético concentrado numa só cor. Essa cor que está sempre no meio do caminho entre o tostado intencional, portanto artificial, relegado às coroas na praia, e o branco sem vitalidade dos dias que antecedem as férias de verão. Como se essa cor nunca precisasse dela, a mais blasé das cores, nunca fosse fruto de um resultado solar, mas de uma natureza pura e ao mesmo tempo intensamente provocativa, porque ambígua. As cores humanas são impossíveis de transpor a uma tonalidade fixa de um giz, compreendo, mas há sempre esforços metafóricos admissíveis como “branca como a espuma do mar” ou “negra azulada”. Entretanto a aproximação se dificulta quando mediterrânea, chuto que pela redundância contida na cor. O bege apático de lingeries que neutralizam a libido, só o faz porque simplifica a tonalidade da cor do corpo, ou seja, comete uma redundância inaceitável porque torna precária nossa impressão da pele. Já na cor mediterrânea o que redunda é o humano da coisa, e toda redundância de humanidade é um excesso de vida, talvez a única redundância aceitável além da do tempo - mais conhecida como tédio.

sábado, 20 de junho de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Água.

Ainda uma criança em matéria de vinhos e culinária, embora desesperado pra entender sobre (note to self) percebo que água é algo a ser valorizado. Há rituais em vinhos e aromas em cafés, na água não há absolutamente nada. Há uma saciedade infalível, uma satisfação plena, com um líquido humilde e prosaico. Não sem razão, nunca vi nada que substituísse água. Não tem experiência estética em se tomar água, não tem gosto, tem só o encontro com sua natureza, na forma de sede.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Internetês sucinto.

As conversas com meu primo de 11 anos extremamente maduro tem me convencido da importância da concisão do estilo:

Pedro diz:
oi paulo antonio
Paulo diz:
theboneweaver@hotmail.com, to better server our customers, all chat histories are stored and maintained by Ncsoft. If you do not agree to have your chat records stored, please close the chat window now. For more information regarding this procedure, please visit our home page at www.PlayNC.com. Thank you!
Pedro diz:
minha vó ta aqui
vc ta infectado
Paulo diz:
s
virus?
Pedro diz:
sim
Paulo diz:
k



Balada de jurista

Não posso ler coisas como "a festejada doutrina" em textos jurídicos. Minha alma rosna. Subitamente imagino uma balada de juristas que se divertem se citando.
Não tem como festejar uma doutrina, ela não é festiva, a doutrina nasce infeliz, porque não tem humor algum. O texto doutrinário não é sociável, não é de farra. Imagino 700 juristas festejando uma doutrina, um cenário bizarro de velhos dançando em cima de uma tese pacífica. Incrível essa balada.

Papel e caneta de manhã.

As gentes, todo mundo, toda a humanidade inteira, deviam anotar uma única coisa na vida, seus sonhos. Olhando pra trás e recapitulando meu ser percebo que a memória pode brotar a qualquer instante, seja reagindo com a experiência do atual, ou com a nostalgia. A memória, então, é recapitulável (joguem fora essa palavra), o sonho não. Não há esforço no mundo que te lembre de um sonho, tenho alguns marcados, mas tantos outros perdidos. E sonho é um absurdo diário, uma catálise brutal pra imaginação. Não vale o desperdício, jamais. Ao acordarem, por favor, exercitem essa gratidão para os seus seres, e corram pro papel.

domingo, 14 de junho de 2009

Ensino fundamental.

“Schools arc in favor of sensitivity and opposed, naturally, to insensitivity. In the traditional curriculum there are still some outdated things that cause insensitivity. Historical dates cause insensitivity. The square of the hypotenuse instills callousness. Untempered grammar and spelling produce ruthless elitism. The multiplication table can engender inhumanity, and precise diction has been known to result in fascism. Since we have not yet managed to persuade the public that such studies should be discontinued utterly, the best we can do is mitigate them, wherever possible, with expeditions into the mists of what is called noncognitive learning."

sábado, 13 de junho de 2009

Tese.

Tem aquela frase do Millôr: shakespeare só escrevia citações.

Bom, o Luhmann só escrevia teses.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Só pra lembrar.

Hoje é mais fácil ou mais difícil ser Diogo Mainardi?

Eu sempre tive uma visão bastante crítica a meu respeito, então nunca dei muita bola para minha imagem. Sempre me achei pior do que os outros achavam. Sei que o que eu faço é um trabalho, não é uma cruzada. Eu não tenho segundas intenções, não tenho motivação política, interesse pessoal. Faço porque é o meu trabalho. É muito fácil ser Diogo Mainardi porque acabo de trabalhar, desligo computador e sou esse aborrecidíssimo pai de família, um burguesinho comportadinho, certinho, meio barrigudinho que leva o filho para a escola, traz o filho da escola. Então é muito fácil ser Diogo Mainardi. Não recomendo a ninguém, aliás.

"O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é de lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. Pode surgir arte boa de assaltantes, contrabandistas ou ladrões de cavalos. As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro. O sucesso é feminino e como uma mulher; se você se curva diante dela, ela passa por cima de você. Então o jeito de tratá-la é dar-lhe as costas da mão. Aí, talvez, ela venha a rastejar".

fogo pálido

O mínimo que se espera de quem começa a criticar e ironizar os outros é que ele próprio esteja preparado para ser criticado e ironizado.Estranho é quando em nome de uma inexplicável obsessão alguém dedica parágrafos e mais parágrafos por semana ao objetivo de refutar palavras alheias mas perde a compostura ao ser criticado e ironizado em uma única linha.Deve ser muito triste envelhecer com carência de atenção, sem a maturidade emocional. Hoje, com disposição e esforço, todos podem ter acesso a tratamentos psiquiátricos e terapias.E eu não estou sendo irônico."

terça-feira, 9 de junho de 2009

Tédio

Estou convencido de que meus heróis morreram de lordose.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Índice pluviométrico.

Numa pesquisa desgastante que tenho realizado sobre contratos de swap descobri que na BMF dá pra comprar chuva, e não só uma, você pode muito bem comprar 740 chuvas, no futuro ainda.

sábado, 6 de junho de 2009

Que pasa.

Preciso confessar que não sou apaixonado por jazz. Nunca vou ser. Jazz tem umas chatices constantes, improvisações constrangedoras, notas agudas escandalosas, e mais, é cansativo. Por isso que até prefiro os que não ficam só no jazz, como Horace Silver, Donald Byrd ou Larry Young. O próprio Horace abre músicas pedindo pra plateia achar o groove junto com ele. Pra mim Miles Davis não tem groove, tem classe, é sisudo. Mas enfim, o que é presente em todo o jazz é aquela margenzinha de estilo. Ouvir jazz é como vestir Martin Margiela, Original Fake e um belo Onitsuka sem parecer hype (não há outro termo, apologize me).
Todo ouvinte de jazz é então poser. Pode ter 93 anos, 1112 vinis, e assistir pacientemente o show do Jimmy Cobb que continua sendo poser, pois não tem como dissociar o som daquela sensação cocain driving a la Pulp Fiction. Pronto, consegui definir agora. Jazz é o tabaco da música.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"I cannot see it. I may not touch it. I do not know it"

Terminando de ler a "Fisherman and his Soul", um conto de Wilde, fiquei com uma vontade imensa de sair falando pra todo mundo aquela fala do pescador sobre sua alma. Há algo de estúpido e ao mesmo tempo tão divertido no que ele diz e a sonoridade robótica da frase ajuda a enxergar isso:

"I cannot see it. I may not touch it. I do not know it".
Repitam isso algumas vezes. Oi, tudo bom?

"I cannot see it. I may not touch it. I do not know it".
De fato,

"I cannot see it. I may not touch it. I do not know it".
Acaba que

"I cannot see it. I may not touch it. I do not know it".

Outras partes no conto também são divertidas, mas tenho um pouco de vergonha da minha diversão. Acredito que o dr. Oscar queria dar um tom teatral ao conto, mas eu acabei lendo de outra forma, mais próxima de uma narrativa. Daí rio sozinho. Mais à frente a alma do pescador o chama pra um papo na beira do mar dizendo que quer contar uma coisa. A partir daí, ela conta uma história imensa de uma viagem infinita pro leste em que ela conheceu um pessoal incrível, vários reis, catou um espelho lá do conhecimento, matou gente, tentaram matar ela mas nada a atingia. Leitura pra meia hora e meia. Depois que ela termina, o pescador vira e diz:

- Prefiro o amor, foda-se.

É complicado porque você ainda está sob o efeito da narrativa fantástica e toma um tapa na cara desses. Não deixa de ser interessante a frustração da expectativa, visto que de uma história longa a gente espera uma resposta à altura. Ou ao menos alguma parcimônia vinda da paciência de já ter ouvido tamanha ladainha.

terça-feira, 2 de junho de 2009

middle class for life.

Eu escrevo como quem classe média.

sábado, 30 de maio de 2009

Regra de ouro.

Se escrever bem fosse escrever pra você mesmo, eu seria escritor.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Vir'essa boca pra lá"

Desligando o telefone com minha mãe percebo o quanto ainda as gentes preservam um pudor religioso às palavras. E não tem nada de moral nele, por exemplo, de falar cu. É um medo que as palavras venham a se concretizar. A dor de garganta do meu irmão, talvez quando dita, possa piorar a condição dele. Esse raciocínio é extremamente místico, a palavra, por si só, não gera efeito na realidade. O máximo que ela causa é um efeito no interlocutor, alguma ofensa ou agrado. Seria fascinante construir todo um romance baseado nesse conteúdo místico das palavras e conformar toda uma descrição presente à construção de um futuro. Afastando assim o paradoxo que essa ideia contém.


p.S: Entendo agora porque meu professor de Direito de Família e Sucessões disse que o Brasil é um dos países em que menos se faz testamentos.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Omitir é afirmar duas vezes.

Em toda forma de convencimento feminino há uma margem irracional de charme difícil de resistir. Uma resposta charmosa a essa persuasão é não percebê-la junto com um sonoro não aos pedidos. Independência também é charme. E indiferença, estilo.

Cansado de autores.

As vozes que povoam nossa mente emudecem com a leitura. Substitui-se todo o burburinho intelectual por um só autor. O que aparenta aliviante num primeiro momento, atormenta ainda mais quando encerra. Ler só aumenta o número de vozes. O que faz da leitura o exercício da solidão diante da multidão que cada um tem dentro de si.

sábado, 23 de maio de 2009

Linguagem.

Já faz mais de dois anos que brigo com a verdade. Hoje, lendo uma introdução à Lógica, me surpreendi com a seguinte frase: verdade é sentido. Soou tão evidente. Sempre tomei rumos diferentes, mais combativos, pra lidar com a maldita. E com um estilingue o sujeito derruba ela.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Proust.

Quanto mais distinguo a boa escrita da escrita ruim, mais tenho horror a minha. Não que eu desista de escrever. A boa escrita me traz uma sensação de que todo o texto é preenchido. Por exemplo, aí viu? Já lancei uma expressão vazia. Sem contar o pouco que se usa pra dizer muito. Podem até entender a originalidade como parte de uma boa escrita, no que discordo. A "originalidade" é o ponto de partida, por favor, se queres falar de globalização não escreva. Junto a isso tem a sonoridade das palavras, o tamanho dos períodos. Coisas mortas também que quem usa enterra o próprio texto, vejam só o quanto brocha a escrita colocar esse conectivo agora. Ademais, pronto, fim do texto.

domingo, 17 de maio de 2009

"A constituição jovem."

Fico feliz em saber que uma parcela imensa da população mundial não lê jurisprudência. Esta leitura é a interpretação de um vômito. Não há a menor preocupação com concisão, estilo, é um esparramado jurídico. Até aí tudo bem, sem pretensões literárias, que quando ocorrem soam sempre ostensivas ao ponto de darem ânsia, de vômito claro. Mas piora quando não há preocupação de inteligibilidade, e não há. Evidente que não, jurista escreve de si para os outros da mesma corja. Ser incompreendido é ser irresponsável nesta matéria. Não me interessa se a linguagem jurídica precisa lapidar os conceitos em busca de um conteúdo unívoco. Flaubert tinha uma preocupação análoga. Não quero comparar o STF com Flaubert, apenas admitir a possibilidade de se fazer algo mais enxugado com o mesmo fim. Revisor de decisões daria um bom cargo público.

sábado, 16 de maio de 2009

Todo mundo é dois.

Se tacassem fogo na minha biblioteca eu acudiria poucos livros. Tem muita coisa aqui já, mas pouca coisa realmente lida. Enxergo isso com Fernando Pessoa, comecei lendo Alberto Caeiro, numa época intothewild. Hoje leio Barão de Teive e as cartas dele pedindo dinheiro aos amigos, ou mesmo a notícia de jornal que divulga sua morte. O aprofundamento vertical de um autor é incrível, mas mostra que não dá pra conhecer de tudo. Já tentei ler Crime e Castigo trêz vezes, nunca passei da página 30 e poucos. Aliás, a literatura russa inteira passou em branco na minha vida. Maiakovski tem espaço aqui, com "A minha descoberta da América", livro que eu não tenho lembrança alguma a não ser a capa pintada com as cores da bandeira dos EUA num tom de giz. Tem também "Pais e filhos", zero. Ivan Ilitch, do Tolstoi, também nada. Sei que o importante não é lembrar dos livros que lemos, mas analisar o quanto eles te mudam. A Rússia não me mudou.
Já com Pessoa sinto que convivo com ele. Dá até pra projetar diálogos, enxergar seu estilo de vida. Ter seu autor como favorito é se encontrar nele. Não por mera identificação, mas por interlocução. Ao lê-lo vocês conversam ao ponto de você perceber que o diálogo é entre você e você mesmo, sendo o autor apenas o meio dessa relação.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

"O sono é um caminhão."

Descobri recentemente o momento em que apagamos no sono. Esta é uma descoberta incrível, muito maior que a do temaki de salmão com farofa de pistache em que me senti comendo uma arabesque de Debussy. Na verdade não é bem o momento exato, mas sempre antecede a ele, então serve para tirarmos essa dúvida infantil. Quando estiver naquela fase between the click of a light and the start of a dream é só prestar atenção no seu olho, haverá um momento em que parece que há uma camada interna nele que fecha também. Eu chutaria que é minha alma fechando alguma coisa dela lá, mas é presunção demais. Esta é uma informação interessante para aqueles que vão até Roma antes do sono, passeiam pela sua rotina, tentam conceber o disco de um lado só de um conto do Borges, tiram conclusões para toda a vida, anotam sacadas, formam discursos para apresentar a alguém, montam linhas de argumento etc. etc. Nesse fechar da persiana dos olhos convém deslocar o máximo de concentração para o sono, aumentando as chances do caminhão passar.

"Ao tempo Deus dá habeas-corpus"

Texto pro lixo.

sábado, 9 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Farmácia.

Se algum dia eu produzir algo acadêmico prometo me filiar na corrente do empirismo cego. Tem expressão de maior efeito que essa? Não é pelo paradoxo óbvio, é pelo modo como o empirista cego trabalha, tateando os objetos, analisando suas disposições. O como do porquê.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Pergunta.

Ando atrás de alguém que não consegue conceber a Torre Eifell.

O que foi que eu disse? pt. 2

Há momentos numa partida de xadrez em que eu me tenho por sortudo. Visualizo meu jogo e concluo que a estrutura dele está bem montada, para cada movimento do adversário há uma boa resposta com uma peça minha. A questão é que eu não faço ideia de como as coisas chegaram a ser assim, e se foi um processo pensado, daí atribuir sorte a isso. No entanto sorte e matemática não se conciliam. Penso se não há uma espécie de intuitivação da lógica atrás do jogo alcançada pelo número de partidas, mas não procede. Não estudo lógica e sou um inútil em números, portanto não tenho prática pra moldar futuras experiências, e nunca estudei xadrez, nem jogo muito. Pergunto se não sou eu que, naquele momento, consigo visualizar um número maior de jogadas, e provavelmente é este o argumento contra a sorte. Mas o arranjo do jogo é tão esteticamente prazeroso, até mesmo especular, que distorce meu julgamento a respeito dessa estrutura vantajosa, o que me leva à pergunta errada. Não é como vim parar aqui nesse arranjo? mas sim por que estou visualizando tantas jogadas?
Nesse sentido, a sacada que tenho diante do jogo, ao descobri-lo daquela maneira, traz consigo uma sensação de prazer dada pelo domínio daquele instante da partida, me levando a um raciocínio sobre o que senti, não tanto sobre o racional por trás de toda aquela visualização. Estranho como as sensações, mesmo que só por aquele momento, alocam o sentido que você vai dar às coisas.

O que foi que eu disse?

Quando somos convocados instantaneamente por alguém a falar de algum tema polêmico o senso comum costuma ser uma reação. Aborto? Morte, direito à vida, bebê, proteção etc. etc. Isso é desesperador.
É como se as ideias fossem formadas sem uma gota de reflexão, com argumentos na forma de imagens, estanques e terminados. Estranho que a reflexão que foge ao senso comum, a crítica, chega à mesma forma quando esgota o tema. A pretensão de esgotamento vicia a reflexão.

sábado, 2 de maio de 2009

Presunção.

"pretty much it."

"Esta é a questão. Um prazer que se aprofunda às vezes até comunicar uma ilusão de compreensão íntima do objecto que a causa; um prazer que excita a inteligência, a desafia e lhe faz apreciar a sua derrota; mais, um prazer que pode irritar a estranha necessidade de produzir, ou de reproduzir a coisa, o acontecimento, o objecto ou o estado, ao qual parece irmanado, e que se torna por isso uma fonte de actvidade sem termo certo, capaz de impor uma disciplina, um zelo, tormentos a toda uma vida, e de a preencher, senão mesmo de a transbordar(...)"

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Propedêutica do sentimento.

Prometo fugir da pieguice.

Não fugi da pieguice.


segunda-feira, 27 de abril de 2009

Pontes que nunca conseguirei fazer.

Telefone com a mãe:

- Meu filho, a gripe suina está dando mais em pessoas entre os 25 e os 50 anos, a minha interpretação é que a crise econômica diminuiu a imunidade dessas pessoas por conta do stress, por isso tanta gente doente.

Piseiro acadêmico.

Um item fundamental de festa de criança é o copinho de plástico com coca-cola. Naquela mixórdia toda de meninice, crianças se aglomeram em volta dos pais sedentas por refrigerante. Eis que a coca cola vai pro chão, as crianças pisam e pisam e o chão começa a grudar terrivelmente. Desagrada até pelo barulho da fricção do sapato com a sujeira. Minha avó chama isso de piseiro. Meus pais ainda devem usar o termo e eu me esforço para mantê-lo vivo, porque tradição é nobreza até nesse caso.
Um "piseiro acadêmico" seria o melhor adjetivo para temas como estes:

1 - "A ética na globalização."
2 - "(Comércio, política, direito etc.) Internacional."
3 - "Princípio da dignidade humana."
4 - "CADE." (defesa da concorrência, argumentos pró-mercado)
5 - "Nietzche." (pós-modernidade)

Imaginem agora esses temas pisoteados por milhares de autores, cada um deixando seu resquício neles. O que gruda é o lugar comum que essa bagunça funda. Fujam dessas coisas nos jornais. A opção pelo tema tem o mesmo peso que o próprio tema. E pra falar desses cinco temas (há uma lista infinita) tem que conseguir chegar até lá. Então pra falar de ética na globalização não basta apenas juntar a ética num contexto global, tem que falar de identidade e ética, falar de cultura e ética, possibilidade de universalização da ética etc. Conjurar esses temas é facil, mas é cretinice em que o resultado é a reprodução do que já foi dito de maneira mais atualizada.

domingo, 26 de abril de 2009

A todos os parentes do mundo.

Aquele dizer (a sonoridade dessa palavra é muito caipira) que fala que parente a gente num escolhe, amigo sim, faz todo sentido para nós, vejam que para os gregos não tanto:

"O parente como melhor amigo - Os gregos, que sabiam tão bem o que é um amigo - de todos os povos, só eles tiveram uma discussão filosófica profunda e variada sobre a amizade; de modo que foram os primeiros e até hoje os últimos a ver o amigo como um problema digno de solução -, esses mesmos gregos designavam os parentes com uma expressão que é o superlativo da palavra "amigo". Isto permanece inexplicável para mim."

Eu ri muito.

Destacando expressões.

Gostaria de destacar algumas das expressões que fazem parte do meu cotidiano e que sintetizam redondamente bem uma situação específica. Seus temas são tão circunscritos que dá gosto dizê-las, é como acertar o alvo bem no meio da situação:

1 - "Matou o Bowser." (Utilizada quando o sujeito ou consegue a garota mais incrível da balada ou quando, próxima expressão.

2 - "Rolou segundo tempo." (auto-explicativa)

3 - "Se não chover, 'cê molha as plantas" (também muito específica, designada para situações em que um amigo alerta o outro ainda sem garantias do que irá acontecer para, se nada acontecer, aproveitar as bordas.)

4 - "Foda-se o avião que eu não sou piloto." (aka "quem pariu Mateus que o embale", cunhada pelo meu avô belicista fanático por guerras.)

5 - "Cerveja quente é igual mulher da'gente." (o uso dessa expressão ganha sentido irônico, pois a ideia de mulher'dagente já foi superada e ultimamente (culpem a pós modernidade) tem sido mais fácil "pegar gente" do que "manter-se pegando a mesma pessoa." Daí ser válida para momentos de auto-ironia ou ignorância deliberada.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Chart.

Não tem critério algum:

1 - Anima Sound System - 68 (original mix) (ressuscitado)
2 - Sideshow - Television ft. Cortney Tidwell (coisa nova)
3 - Thelonious Monk - Well, you needn't (isso pra mim nunca vai deixar de ser trilha sonora do Sim City, incluindo Brubeck)
4 - dOP - Genius of the Crowd (poema remixado)
5 - Tom Waits - Better without a wife
6 - Why? - Exegesis
7 - Belchior - Alucinação (wtf?)
8 - Nick Drake - Must have been smoking long (thanks ricardo)
9 - Great Lake Swimmers - Your rocky spine
10 - The Mountain Goats - Sax Rohmer #1
11 - Neutral Milk Hotel - Communist Daughter

quarta-feira, 25 de março de 2009