quarta-feira, 22 de julho de 2009
Proto-texto.
Aconteceu com meu autor e compensa contar. Anos atrás sua avó o benzia, como ele não era religioso, ia pela sensação. O ato lhe era estranho e místico, a avó sussurrava palavras que simulavam rezas atravessadas enquanto a boca estalava os finais de cada som. Terminava em sinais da cruz com água benta na testa e nos ombros, e a água estava sempre morna com gosto de guardado que ele tomaria o que sobrou no fim do ritual. A sensação era de um silêncio da alma, que se assemelhava à anamnese matinal que temos diante do guarda roupa, em que o tempo dilata cinco minutos até a eternidade. Mas havia algo a mais, porque lhe era consciente. Olhar pro guarda roupa, assim como abrir a geladeira pra pensar, era uma dispersão – ou como o povo diz, a tal morte da bezerra. Anos se passaram sem que meu autor conseguisse de novo alcançar aquela sensação, e eis que ela ocorreu no lugar mais impossível. Há um ano a trás, meados de julho, quando ele devolvia livros na biblioteca da EAESP, um velhinho que lá os verifica ao tomá-los de sua mão, fez com uma lentidão e uma gravidade tão intensas que causou nele o tal silêncio da alma. Meu autor tentou todas as formas de explicação racional possíveis, de encarar a verificação dos livros como um ato religioso, ou do jeito do velhinho tê-los entregado, de maneira lenta e certa. Nada o convenceu, coitado. Hoje ele continua com essa dúvida, e ainda promete explicá-la racionalmente. Mas, ao contrário dele, eu sei, sei bem porque leio Tomás de Aquino e tenho fé. Aquela sensação era Deus.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário