sábado, 8 de dezembro de 2007
trava língua
Nos posts abaixo, segue o debate via e-mail que tive com o Pedro. Cada postagem equivale a uma mensagem. São dois pontos-de-vista absolutamente distintos, porém válidos. A discussão de idéias e opiniões deveria ser a primeira bandeira de um blog, ferramenta livre das amarras da imparcialidade."
Fernando.
trava língua - pedro - III
O exercício de governo não pode ser aspirante, há sempre uma urgência nas tomadas de decisões de um chefe do Executivo. Eu espero ter deixado bem claro que toda a discussão envolve: Lula, governo em exercício e realidade imediata. Ela de longe passa por um conteúdo programático. O máximo que ela alcança é a futura eleição presidencial e os possíveis argumentos oposicionistas que virão. Vamos nos ater ao início da discussão porque, ao meu ver, você lançou macroquestões que fogem da alçada desta conversa. Você me largou numa situação perigosa ao dizer que tudo o que digo resume-se na continuidade, aceitação e no "lidar" com os problemas, não me atentando a uma resolução a longo prazo para acabar de vez com eles. De fato, do ponto de vista de um mandato, a efetividade deste anda junto com a proximidade da sua realidade. E não adianta se propor a um projeto de governo desconectado do contexto contemporâneo, mesmo porque as ações ditas imediatistas têm fortes consequências futuras. O caso da ação afirmativa é clássico. Prover cotas é um mecanismo de inserção social que se desdobra em duas pontas, numa instantânea que é o curso superior (não quero entrar no mérito de como o sujeito irá se formar, ou se ele conseguirá), e noutra que será uma futura família cujo pai subiu um degrau, havendo maiores chances de seus filhos também terem acesso ao curso superior. Voltamos a uma questão que não pode ser considerada como cliché que é a igualdade de oportunidade. Aonde a língua entra nisso tudo? Pra começar ela não tem que entrar. Deve haver um reconhecimento de qualquer forma de utilização da língua (inteligível) partindo de um pressuposto de que seja qual for o uso, trata-se do mesmo idioma, o português, portanto qualquer tipo de manifestação da linguagem deve ser levado em conta igualmente. A minha insistência vai no sentido de não enxergar na linguagem um critério seletivo e diferenciador, quer algo mais inclusivo que isso? Agora aqui, ironicamente, eu caio no mesmo problema que ao meu ver você criou, o problema do ideal. Eu tendo a preferir perspectivas governamentais (executivas) que lidam com a realidade e não programando ela. Isso antagoniza ainda mais os posicionamentos ideológicos dessa discussão. E prefiro deixar a parte programática para o campo privado, mas para explicar tal tipo de coisa me custaria muito trabalho e eu acho que ainda nem tenho capacidade para tamanha empreitada.
Você dizer que as decisões do chefe do Executivo são guiadas por crenças, dogmas, valores pessoais é muito arriscado. Primeiro porque a decisão de um presidente fica delimitada por procedimentos racionais estabelecidos por uma democracia. Checks and balances de outros poderes (legislativo e judiciário), o próprio ordenamento jurídico estabelece sobre a matéria que o presidente pode trabalhar em cima, além de cobrar a necessidade de outras. Você cai no mesmo problema de discricionariedade no direito e na decisão de um juiz, que pode até existir, mas é limitado pelo próprio regime em que ele acontece. Os valores pessoais de um candidato à presidente são facilmente verificáveis em projetos de governo nas vésperas de eleição (fome zero!?), mas o resultado disso no exercício de um mandato é inócuo. Sou bastante cético com argumentos do tipo "Lula pensa assim, logo vai o governo vai ser assim", eles não convencem e são muito difíceis de se sustentar quando sujeitos a um crivo crítico. É uma big picture que o presidente faz parte e não contrário, sendo o presidente a big picture do nosso país. Daí minha implicância com a direita daqui, ela falha até pra argumentar. Se ela se propusesse a um debate não raivoso, que se distanciasse da "pessoalidade" dos argumentos ela estaria preparada não para discutir com a esquerda que também não é lá muito essas coisas, mas com a sociedade em si que, enfim, aceitaria os argumentos podendo até se convencer deles. Hoje o que eu assisto é uma elite desesperada que se alimenta de si mesma, porque convive consigo mesma e acha que aquilo que ela pensa é o que está em voga. O quão absurdo soa para as outras pessoas que convivo (portando da elite também) quando digo: "votei no Lula", "sou de esquerda" (isso não está relacionado) etc. é um sintoma da irrealidade que nós vivemos. Não devemos nunca perder nosso (bom) senso de maioria, foi ela que elegeu nosso presidente, uma maioria carente de requisitos básicos anteriores a uma educação no ensino superior ou técnico. Nunca esta será dispensável, ainda mais hoje, mas vamos por partes para que um dia todos consigam alcançar a oportunidade, para só assim serem capazes de demonstrar mérito.
Não confunda as competências. Competência política o nosso presidente tem, carisma, legitimidade democrática, partido etc. Competência técnica eu diria que não, mas pra quê? O cargo dele é político e representativo. Compare os governos FHC e Lula e, ao mesmo tempo, compare as formações dos dois, é abissal a diferença na primeira comparação? Porque na segunda é. Logo, não vejo ligação nessas duas comparações. Eu insisto, tudo que é pessoal numa arena política é a priori superado, quem faz uso disso se encontra numa situação de apelo a armas ignoradas num jogo político. A direita não percebe que cada tiro seu sai pela culatra. E eu acho que o FHC já percebeu isso, ele está muito mais manso e adequado às delimitações racionais de um debate, até fazendo piadinhas com seu opositor.
Sugestão de leitura: Sabatina com FHC na Folha.
trava língua - fernando - II
trava língua - pedro - II
Prefiro continuar raso do que ter que "aprofundar" a discussão para um argumento estúpido e disseminado pelos próprios meios de comunicação. Esse do tipo "Lula diz que não precisa estudar". Além dele não ter importância social alguma e, também, ensejar ainda mais ódio ao nosso presidente, ele não se desdobra em políticas públicas avessas à educação, ou um "desprezo" quanto ao repasse financeiro destinado a este setor. Para os que dizem que este tipo de declaração, se é que existe, pode "contaminar" as pessoas que se "espelham" no presidente para "crescer na vida", tornando-as acomodadas e prostadas esperando seu "bolsa-família" por favor se toquem. Se é dada a oportunidade de estudo ninguém vai simplesmente ignorá-la por mera preguiça ou porque o presidente falou que a "educação não serve pra nada". E bolsa não preenche fome de outras coisas (eu nunca na vida quis citar Titãs com isso).
A resolução do exercício é simples. Contanto que ambos os presidentes sejam eleitos democraticamente eles são equivalentes. Se para você a competência funda-se na educação e você votou pensando assim, sem problemas. Agora, pensando reflexivamente, o Lula como presidente significa o que? Que muitas pessoas não adotam o mesmo critério que o seu para votarem. Alguns vão pelo binário amigo/inimigo, outros pelo cargo, muitos pela ideologia. Felizmente, nós não temos controle sobre as finalidades (interesses) de cada um imprimidas no seu voto. E é aí que reside a grande sacada da democracia neste caso, ela isenta o jogo de interesses e fornece à maioria uma vitória. Se você quer resolver o absurdo de se ter um presidente não graduado primeiro você tem que providenciar a noção, ao menos, de que a educação irá resolver, emergencialmente, os problemas que assolam uma maioria no nosso país. Ou senão você pode também subverter os ditames democráticos, fica a seu critério.
Pra mim presidente tem que ser eleito democraticamente, a formação dele de forma alguma há de ser pré-requisito para o exercício de um cargo de representatividade. Se fosse assim, seria anti-democrático. Opinião pessoal? Eu votaria num economista, agora o porquê disso já são outros 500.
Sugestões de leitura: "O famigerado" - Guimarães Rosa.
"Ler não serve pra nada" artigo do Diogo Mainardi.
trava língua - fernando - I
trava língua - pedro - I
domingo, 2 de dezembro de 2007
Repercussões...
vocês são uns nerds alieniginas
germano. diz:
eu procurando no google sobre rawl e kant...um desses trabalinhos que me popassem o trabalhod e abrir qualquer apostila..pq ta tarde ja..na oestudei nd..e to com uma puta duma ressaca fudida
germano. diz:
e preciso tirar nota na prova
germano. diz:
e encontro teu blog no meio da pesquisa
Pedro diz:
UOHEASUOSAESAEOU
Pedro diz:
eu acabei de postar porra
Pedro diz:
conversa mó zuada
germano. diz:
na moral..vocês são monstros androides
germano. diz:
que vieram do futuro pra pentelhar quem vive em paz
germano. diz:
nessa era
Pedro diz:
kra
Pedro diz:
eu não te pentelho em nada
Pedro diz:
aliás eu só tento te ajudar
germano. diz:
o simples fato de tu colocar aquilo no teu blog
germano. diz:
e eu encontrar pesquisando no google
germano. diz:
e ver que tem gente que realmente frequentou as aulas do ronaldo
germano. diz:
leu dois textos quen em foram cobrados na epoca
germano. diz:
e ainda sabem pra caralho de cada um
germano. diz:
e ainda os discutem
germano. diz:
me pentelha, e muito!
Pedro diz:
mas é você pentelhando a si mesmo então
germano. diz:
eh a abstração do matter of fact
germano. diz:
mas me ajudou aquela porra
Pedro diz:
aseuheashusae
germano. diz:
porque não to em condição
germano. diz:
em selecionar as paradas
germano. diz:
preciso de qualquer coisa mastigada
germano. diz:
bebi vorazmente ontem, estou um lixo
germano. diz:
são 11:43..to com sono
germano. diz:
e não estudei nd
Pedro diz:
=/
germano. diz:
mas nem tudo pode ser ruim..
germano. diz:
tb tenho que ter qualidades para realizar as provas
Pedro diz:
justo
germano. diz:
sou adpeto da prática milenar..que vem acompanhando a humanidade desde seus primoridas
germano. diz:
primordios*
germano. diz:
além da vagabundagem é claro.
germano. diz:
é a raça do guerreiro!
afinal, descobrimos qual a critica de rawls ao utilitarismo
Pedro diz:
porra
Pedro diz:
digaaa
gonça... diz:
nao, estou peguntando qual a critica
Pedro diz:
UEHASUOHESAUOEHES
Pedro diz:
kra
Pedro diz:
eu to sentindo que o rawls falou isso num debate com o habermas
Pedro diz:
mas nao sei explicar
gonça... diz:
eu pensei numa coisa pra relacionar rawls e kant
gonça... diz:
a posicao original pro rawls, onde os individuos se encontram livres de qualquer interesse , sob o veu da ignorancia
Pedro diz:
tudo?!
gonça... diz:
a escolha que esses caras vao fazer está baseada no puro dever moral, expresso em imperativos categoricos
gonça... diz:
pq se nao tem fim nenhum em jogo, se nao tem interesse nenhum
Pedro diz:
exato
gonça... diz:
soh se pode tratar de imperativos categóricos
Pedro diz:
é porque ambos
Pedro diz:
buscam uma teoria que se adeque à heterogeneidade
Pedro diz:
e pra isso ela tem que ser neutra
Pedro diz:
isenta de interesses
gonça... diz:
entao.. e eh essa escolha baseada no puro dever moral, que, justamente por isso, fundamenta os principios morais da sociedade, nao eh?
Pedro diz:
nao sei se da sociedade...
Pedro diz:
mas o ponto de vista de um observador imparcial sim
Pedro diz:
foca no sujeito
Pedro diz:
nao escreve sociedade na prova
Pedro diz:
é latada
Pedro diz:
=(
Pedro diz:
o ronaldo é louco
gonça... diz:
po, mas a posicao originaria que eu to tratando é a posicao da escolha dos principios morais da sociedade
gonça... diz:
transcrito do proprio rawls
Pedro diz:
mas eu nao sei se isso é pra kant...
Pedro diz:
pq, deontologicamente falando
Pedro diz:
o kant trata de escolhas, moral, fundamentação de princípios sob uma perspectiva do ser e seu dever
gonça... diz:
sim
gonça... diz:
o rawls nao
gonça... diz:
o rawls trata de justica social
gonça... diz:
nao tem como falar de rawls sem dizer sociedade
Pedro diz:
sim ligada às instituições
gonça... diz:
o objeto dele é a justiça social
Pedro diz:
será que cravamos uma diferença?
gonça... diz:
e o intuito da posicao original é a distincao de principios de justicao que serao aceitaveis
gonça... diz:
q diferenca?
Pedro diz:
"foco"
Pedro diz:
kant = ser
Pedro diz:
rawls = sociedade
Pedro diz:
?
gonça... diz:
isso sim , de fato
gonça... diz:
os textos que lemos de kant e rawls mostram com clareza
gonça... diz:
o obhjeto do estudo do rawls nao eh um principio da moralidade no individuo
gonça... diz:
mas sim na sociedade
gonça... diz:
a orgiem da justica social
gonça... diz:
o kant nao
gonça... diz:
o kant quer descobrir o principio puro da moralidade
gonça... diz:
o q q eva o individuo a praticar o bem puro, a acao moral
Pedro diz:
exato
gonça... diz:
certo
gonça... diz:
entao a influencia kantiana em rawls ja ta beleza
Pedro diz:
ok aonde entra bentham nisso tudo?
Pedro diz:
easuhesaeah
Pedro diz:
essa é minha duvida
gonça... diz:
cara
gonça... diz:
kant vs bentham eu sei
Pedro diz:
eu nao
gonça... diz:
os dois diferem em tudo po
Pedro diz:
eu nao sei kant E bentham kra
Pedro diz:
ele falou em aula
Pedro diz:
nao anotei
gonça... diz:
pro bentham a acao moral depende de um juizo de consequencia
gonça... diz:
a ética benthaniana é consequencialista
gonça... diz:
isso em si ja difere do kant
gonça... diz:
pra vc decidir se a acao eh moral vc deve olhar pros resultados dela
gonça... diz:
e o criterio eh o calculo utilitarista
gonça... diz:
se a acao promove e maximiza ao topo a felicidade e o bem estar
gonça... diz:
por esse criterio, fornecido pelo principio da utilidade vc tem a acao moral
Pedro diz:
kra tudo bem perfeito
gonça... diz:
pro kant isso eh absurdo
Pedro diz:
mas
Pedro diz:
no que eles convergem?
gonça... diz:
1 - pros dois há um critério único na decisao de qual acao é moral
gonça... diz:
2 - agir por dever e agir em conformidade com o dever sao distintos pra bentham e kant
Pedro diz:
porra kra vc tá muito foda nessa merda kraleo
Pedro diz:
saeuhseaua
gonça... diz:
3 - o principio da moralidade é um só
gonça... diz:
calmae q eu vo pega comida
gonça... diz:
ja volto
gonça... diz:
4 - a razao pratica. pro kant e pro bentham existe uma análise prática da razão que eh possivel (em oposicao ao brilhante ceticismo hobbesiano e kelseniano quanto a isto)
Pedro diz:
sageyiAEGASIY
Pedro diz:
BRILHANTE
Pedro diz:
FUCK YOU
gonça... diz:
ueh, é brilhante! leia "o que é justiça" o kelsen antes de falar qualquer coisa cara
gonça... diz:
o bicho eh da pesada
gonça... diz:
mas enfim
Pedro diz:
leia "Justiça como honestidade"
gonça... diz:
acho que sao esses 4 pontos que eu achei de convergencia entre kant e bentham
gonça... diz:
os 4 nao dizem respeito ao conteudo da moralidade, mas sim a forma e ao metodo de analise
gonça... diz:
por isso que kant e rawls sao mais proximos
gonça... diz:
e até kant e rousseau
gonça... diz:
eu to lendo um cara... flando da critica do rawls ao bentham
gonça... diz:
dizendo nada demais cara
Pedro diz:
kra
Pedro diz:
então é pq nao tem
Pedro diz:
sei lá
gonça... diz:
flando que o rawls critica o fato de bentham estender o criterio utilitarista do individuo para o coletivo
gonça... diz:
e por isso nao leva em conta as diferencas entre individuos e tal
gonça... diz:
mas nad a alem disso
gonça... diz:
o ronaldo disse que nada disso é de fato a critica
gonça... diz:
O utilitarismo estaria exclusivamente
voltado para a maximização da felicidade coletiva, sem se preocupar com o modo como
esta é distribuída, a saber, se de uma maneira justa ou injusta, entre todos os membros
da sociedade
gonça... diz:
Em
suma, o utilitarismo assimilaria os membros de uma sociedade aos interesses e desejos
particulares de cada indivíduo, ou seja, assimilaria pessoas, que têm direitos e são
objetos de respeito e consideração, a necessidades e interesses, que de certo modo
tratamos como coisas às quais podemos negar inescrupulosamente o direito à satisfação.
gonça... diz:
nada demais
Pedro diz:
isso é raso
Pedro diz:
kra
Pedro diz:
mas rebaixando o nivel do dialogo aki
Pedro diz:
eu ando tao surtado com kant
Pedro diz:
q eu tava conversando com uma mina aqui e falei algo do tipo: "me arrependi a priori"
Pedro diz:
ela falou, como!?!?!?
Pedro diz:
eu falei
Pedro diz:
VC NAO LEU KANT
Pedro diz:
EAOSUHAESUOASEHAESUOHAESOUAES
Pedro diz:
mas se bem q num tem nadaver qq eu disse...
gonça... diz:
hahahahahahahhahaaha
gonça... diz:
kant eh mt dificil
sábado, 16 de junho de 2007
DA's e CA's
"A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização."
Maurício Tragtenberg
Leia o texto na íntegra: http://www.espacoacademico.com.br/014/14mtrag1990.htm
sábado, 9 de junho de 2007
Cobertura de eventos: DEBATE PÚBLICO: PESQUISA E MANIPULAÇÃO DE CÉLULAS-TRONCO EMBRIONÁRIAS: CONSTITUCIONAL OU INCONSTITUCIONAL?
Cada professor tinha direito a 10 minutos de apresentação, sendo que todos eles ultrapassaram o tempo, chegando a 20~30 minutos de sustentação. O que era previsível.
Mayana Zatz, professora de Genética da USP, abriu a palestra guiada pela sua apresentação, via slides que mostravam dados e contextos a favor das pesquisas e manipulação de células - tronco embrionárias. Explicou que há uma esperança e não uma comprovação do uso destas na terapia celular para substituição de tecidos. Ela também rebateu falácias que alegavam que na própria célula-embrionária já se poderia ver “perninhas e bracinhos” afirmando que a célula é do tamanho de uma ponta de agulha. Continuou dizendo que células - tronco embrionárias nunca foram inseridas em pacientes (suponho que esse fato se remete somente ao nosso país) . E que o tratamento existente só se dá com células - tronco adultas. Finalizando, ela confirmou o fato de que embriões congelados não geram gravidez viável, mesmo depois de serem descongelados, fato que gerou controvérsias no decorrer do debate. Ela terminou com um pedido vindo de uma das crianças que lidam com o tipo de doença que ela cuida. “Faz um buraco nas minhas costas e põe uma pilha para eu poder andar como minha boneca.” Só transcrevi a frase porque ela será útil para comprovar a tese de que esse debate fugiu totalmente da esfera científica para atolar nos campos político e ideológico.
A próxima professora, Lilian Pinero, que se posicionou em cima do muro, abriu a sustentação dizendo haver a necessidade de ter cuidado com a esperança que a pesquisa sobre célula - tronco pode trazer. Pois, mal se está tendo resultado nas células - tronco adultas. Disse também que o básico no nosso sistema de saúde ainda falta e essa pesquisa não deveria ser colocada como prioridade. Qual a necessidade então de investir o dinheiro em algo que mostra pouco resultado? Apesar de haver certa contundência em todo o decorrer da argumentação, pôde-se notar na professora uma mudança de foco pesquisa à financeiro. E isso também deteriorou de novo o debate público que, como vocês podem perceber, até agora não chegou à questão da constitucionalidade. E o viés científico, mais uma vez, ficou pra trás e foi trocado para “aspectos financeiros” e de “condições da medicina” no Brasil. Esse tipo de argumentação, que não privilegia a própria área, é característica de quem precisa formular uma defesa que, provavelmente, não advém de cunho teórico e, sim, ideológico (no caso aqui “chuto” religioso).
Continuando, o próximo professor, Constitucionalista do Mackenzie, Antonio Carlos do Amaral esquentou o debate. Discorreu sobre fertilização in vitro valendo-se da expressão “filho ao alcance da carteira”. Falando dos estudos preocupantes feitos sobre essa “técnica alarmante” que já causou problemas cardíacos, paralisia infantil, etc. Depois contou como os bastidores da política nacional “colaboraram” para a aprovação da lei de biossegurança. Citou o caso em que Severino Cavalcanti recebeu mulheres em cadeiras de rodas, providenciadas por sua filha. Lançou o questionamento se essa era a melhor maneira de se fazer democracia. Terminou a argumentação com a frase: “Vamos lutar pelas maravilhas da ciência e não abrir portas a suas monstruosidades.” A apresentação dispensa qualquer comentário.
Agora com a EDESP, o professor Ronaldo Porto tratou de dar uma abordagem vinda da sua área de estudo – a ética. Lançou uma pergunta sensível: “A vida do embrião merece o mesmo tipo de reconhecimento moral do que um adulto?” E através dela argumentou-se valendo, também, da opinião de um filósofo ligado à ética prática chamado Peter Singer. Disse que existem níveis de vida a serem valorados. Como no caso de uma pessoa que possui consciência e é capaz de se relacionar socialmente pode adquirir mais importância do que um ser em potencial (no caso aqui uma célula embrionária). A sustentação feita pelo professor Ronaldo foi muito bem recebida, contudo se notava uma cara de desprezo de uma certa cúpula enquanto ele falava. Vale ressaltar que temas como sociedade de riscos e caracterização não absoluta do direito à vida, que fizeram parte da argumentação do professor, não prosseguiram no decorrer do debate. Foram simplesmente anulados. Parecia que o nosso professor se encontrava em “outro plano de discussão”, como foi dito por um dos alunos.
O mais esperado professor, Yves Gandra, também Constitucionalista do Mackenzie foi também o mais polêmico. Propôs analisar o problema à luz da Constituição Federal (finalmente!). E pegou no texto do artigo “É inviolável o direito à vida” sua argumentação. Disse que quando participou da Constituinte, já se deliberava sobre a questão da inviolabilidade do direito à vida e que caso houvesse uma relativização desse direito, precedentes mórbidos poderiam surgir. Focou muito no texto da lei e não avançou muito na argumentação. Citou também a proteção aos ovos da tartaruga feita por lei ordinária. Agora a melhor parte. Foi feita uma pergunta direcionada, especificamente, a ele. Uma questão eminentemente jurídica que ele julgou técnica e repassou para a professora de genética. A questão é que a pergunta foi feita por uma pessoa que realmente necessitava da pesquisa em cima de células - tronco embrionárias, pois não se achava mais nenhum mecanismo para tratar dela. A extrema arrogância ao não responder a questão foi notada por toda a platéia que começou a disparar perguntas. A um certo ponto, discutia-se o embrião de Mozart e numa resposta o professor proferiu a expressão “Embrião Lombrosiano”. A reação do público foi de indignação. Lombroso nada mais é do que um positivista da área da criminologia que na sua teoria afirmava a existência de criminosos natos e que fatores biológicos determinavam a conduta desviante de qualquer sujeito. Desmascarava-se então a ideologia por trás de todo o discurso.
De volta com a EDESP, o professor Oscar Vilhena, também Constitucionalista, começou sua sustentação unindo todos os outros membros do debate a uma questão. Todos eram a favor do direito à vida, porém, existiam diversas formas de ver o tema. Levantou três questões básicas: “Como as sociedades democráticas resolvem suas questões?”; “Qual o ponto central do debate?”; “De que maneira aquele que são os beneficiários também têm o seu direito à vida resguardado?”. No decorrer das respostas, várias interrupções foram feitas pelo Prof. Do Mackenzie no sentido de “retificar” o que era dito. Oscar usou como gancho também as questões abordadas pelo Prof. Ronaldo sobre os níveis de consideração da vida. Rebateu a argumentação formalista de Yves Gandra sobre o caput do Art. 5° da CF, alegando que todos os direitos lá ditos invioláveis possuem reservas.
Essa foi uma cobertura superficial que propôs relatar os temas centrais do debate. Mas que também omitiu alguns escândalos que lá ocorreram. Como era esperado, um tema de tamanha sensibilidade vem a ser defendido de maneira irredutível, o que acaba tornando o debate atomizado em núcleos que se atritam exageradamente. A polêmica toma conta da ciência e o que é pra ser debatido simplesmente não progride. Esbarrando em questões ideológicas e políticas paradoxalmente vindas de juristas e geneticistas.
sábado, 2 de junho de 2007
O crepúsculo da Ideologia
Partindo de uma análise da comunidade EDESPIANA, obtive algumas conclusões sobre as questões (a)políticas que hoje nos permeiam. Nossa Escola foi fundada com a intenção de ser pequena, 50 alunos são premiados por um “afunilamento seletivo” bastante diverso dos outros vestibulares. Essa diferenciação se faz, ouso dizer, através da alta carga cultural exigida pela nossa tão distinta prova. E ela traz para a EDESP um aluno com um mínimo de olhar crítico a respeito do mundo. É exigido isso, e dificilmente se passa num vestibular como esse sem essa valiosa característica.
Esse olhar pressupõe, também, uma capacidade de contextualização política.
É claro que pode existir crítica sem política (no sentido de Governo-População mesmo) e vice-versa. A questão aqui não é essa. O mérito aqui é quando não há aspectos políticos discutidos. Mesmo que estejam escancarados nos jornais e em todos os meios de comunicação, a discussão não se adentra de maneira ideológica na nossa Escola. Falta um julgamento da política, não por falta de competência, que nos é exigida, mas por outros fatores.
Não é do “nosso” interesse (assim pressuponho) adquirir um posicionamento ideológico. Queremos instrumentalizá-lo. Ver os aspectos positivos e negativos de determinada posição, baseada numa análise cética e fria da política. Esquerda e direita são meios para que se alcance determinados fins. Portanto, posicionar-se permanentemente é um prejuízo, pois a minha política (conduta) depende da minha situação.
Então, “vestir uma camisa” é coisa do passado. Deixado para nossos pais evocarem em discursos de períodos ditatoriais que simplesmente não procedem. Não quero cair aqui num saudosismo de quando a atuação jovem era politizada. Mas sim revelar uma nova tendência da ideologia, que ganha forma utilitarista e perde o sentido de posicionamento (de ponto de vista a ser defendido com vigor político).
Ideologia em forma de instrumento separa-se do vigor político para cair em mero ceticismo analítico, desprovido de qualquer força de mudança (manifestação, reivindicação etc..). E sendo assim perde todo o sentido de ideologia para se transformar em análise.
Fiquem agora com uma carta de um leitor publicada no dia 30 de maio de 2007 na Folha de São Paulo:
“No segundo semestre de 1968, na FGV, todos os alunos foram reprovados por faltas por causa de uma greve de 19 dias. Se o mesmo regulamento fosse aplicado na USP, onde há um movimento patrocinado por uma minoria idiotizada pelo vírus da ideologia, tenho certeza de que a palavra greve seria evitada até em pensamento”.
(faltou caracteres?!)
Nessa carta, já se torna perceptível a noção de ideologia que estou discorrendo. Que se divide em duas formas: uma política e uma analítica. Ambas não são excludentes entre si e podem sim coexistir. Mas veja bem o olhar que este leitor tem sobre a primeira. Atuação política em forma de vírus? Que se espalha de forma a causar prejuízo à situação? Estranho que quanto mais utilitário e, conseqüentemente, mais próximo da segunda forma, fica o conceito de ideologia, menor é a força de mudança, de oposição que ele pode gerar. Vejamos a repercussão da ocupação uspiana no prédio da reitoria.
“Serra cede e muda decretos que diminuiriam autonomia de universidades(...). O novo decreto exclui as universidades e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) de três decretos: o que proíbe a contratação de pessoal (51.471), o que exige a reavaliação de contratos e licitações (51.473) e o que estabeleceu a criação da Comissão de Política Salarial, subordinada o governador, que "fixa as diretrizes (..) em assuntos de política salarial".
Qual o tipo de ideologia empregada nas manifestações, reivindicações e ocupações? Política ou analítica? Obviamente a primeira. Agora, é evidente que o equilíbrio dessas duas formas seria o melhor caminho para se resolver um problema que envolva Sociedade e Estado. E que também no conceito de ideologia devem estar embutidas essas duas formas, para justamente não se cair na decadência da política como modo de participação além-voto.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
“Vou atirar uma bomba ao destino.”
O pior inimigo do destino é o livre arbítrio. Neste, vemos nossa capacidade de emergir da viscosidade que nos prende ao “dito cujo”. E por mais que se fuja, sobram restos de Destino na nossa liberdade. E essas sobras são proporcionais à falta de sentido que os tantos impasses da nossa vida possuem. Onde há lacuna racional, há o alento do destino. E onde há destino, há acomodação do pensar. Não se pensa quando, supostamente, já se está estabelecido. Seu tão aguardado futuro reduzido à espera.
A coexistência entre livre arbítrio e destino é impossível. Então por que tantos acreditam nele? Caminho mais fácil da existência, sentido mais fácil de ser dado, mais visível e melhor digerido. Porém, caminho já traçado! Sentido feito por uma entidade e não por você, visibilidade fraudulenta e digestão placebo!
Todo esse texto foi feito pra explicar a frase que anda importunando minha mente. Ela, resultado da união do clichê que mais abomino (“Era pra ser”) com a sensatez melancólica de um dos nossos maiores poetas: “tudo que podia ter sido e não foi”.
“Se era pra ser, tudo que podia ter sido não foi.”