sábado, 12 de janeiro de 2008

Quando lixo vira arte.


"Houve um debate que me chamou a atenção nos últimos dias do ano letivo de 2007, apesar de ter-me também cansado um bocado. Foi a discussão ensejada por um grupo da faculdade de direito sobre o valor artístico de algumas obras, os limites para sua produção – o que envolvia a defesa ou não da propriedade privada, consumismo e outras coisas que não entendi muito bem – .
Do caldeirão de idéias e questionamentos que permearam a discussão, apreendi uma em especial: o que é arte? Há um conceito dela? O momento me remeteu à crítica de Ferreira Gullar a uma exposição de São Paulo. No evento, uma artista plástica, cujo nome me foge, dispôs em um salão dezenas de maçãs que, com o tempo, perdiam a turgidez e, por fim, ficavam flácidas e podres, estiradas na grande sala. O que representam, perguntaram à artista, “elas mostram a fugacidade da vida.” Mamma mia! Esta imagino ter sido a reação de um Gullar indisposto a elogiar o que tende ao clichê e que, resumindo, de fato foi.
Dona Nice, que atualmente nos auxilia com a questão das fotocópias em seu estabelecimento em frente à faculdade de direito, passou a meu ver, por experiência semelhante à de Ferreira Gullar. Quando ainda participava ativamente do sindicato de bancários de São Paulo resolveu, junto a seus colegas, organizar um evento em que seriam expostas algumas obras. Chegando ao local da exposição, Dona Nice espantou-se ao se deparar com dezenas de pênis de borracha multicoloridos, dispostos em fila indiana. Sua reação? “Ah Pedro, se isso é arte eu não sei mais o que é arte não”.
Os tempos mudaram e qualquer coisa kitsch, mixuruca e insossa é grande arte. Aliás, há uma espécie de espectro artístico, como quando vemos as coisas mais repulsivas e dizemos “Ahnn..de certa forma isso é arte”. Temos, portanto, arte, não arte e meia arte. Não porque achemos, necessariamente, isso, mas porque queremos respeitar católica-apostolicamente a arte do próximo, o refugo alheio colocado à mostra em tantas salas neste país e no resto do mundo.
Não reprimo as possibilidades da expressão humana. Chamo a atenção apenas para a democratização das formas de produção artística que, se por um lado, alijou boa parte do ar aristocrático que caracterizavam a pintura, a escultura e outras modalidades, por outro, tornou complexa a tarefa de distinção do que é lixo e o que é arte.
Na Universidade Estadual de Londrina, por exemplo, em meio à densa vegetação que cerca suas instalações, pairam no ar libélulas de sucata, com seus olhos cintilantes feitos com CD’s e, no chão, aranhas feitas de bambu ficam prostradas para a contemplação dos universitários. Uma inclusive chamou a atenção de um colega. Ao vê-la pisoteada, sem qualquer característica que pudesse identificá-la enquanto este aracnídeo, questionou-se: o que é arte e o que é lixo? As libélulas, que ainda exibem traços que as permitem identificar enquanto tais, são muito diferentes da aranha de bambu em frangalhos? E eu agrego, são muito diferentes das maçãs e dos pênis multicoloridos?
A democratização da arte tem, sim senhor, um custo. Mas não será possível construir alguma coisa, algum conceito, em meio à tendência permanente dos últimos anos em apenas destruí-los?"

Pedro Giocondo Guerra, Escola de Direito de São Paulo (Direito-GV)

Arte em desdobramento (contraponto ao artigo anterior)

O colega, e também amigo, Pedro no seu artigo "Quando lixo vira arte" reafirmou essa tendência conservadora que insiste em valer-se dos mesmos critérios que definem a "arte convencional" para a arte contemporânea. Equívoco este, já verificado por Marcelo Coelho, colunista da Folha de São Paulo, que entendeu na famosa crítica de Monteiro Lobato às obras de Anita Malfatti a utilização de um "método de julgar uma obra nova a partir de critérios já estabelecidos, anteriores e externos à própria obra". Antes de me aprofundar nesse tema, preciso me explicar quanto à questão de como conceitualizar arte convencional e arte contemporânea. Chamarei de arte convencional aquela que tem como características principais o fato de se encontrar presa num quadro e o esforço de representar uma realidade. Já no campo da arte contemporânea não tentarei estabilizar qualquer tipo de definição, mesmo porque não acho possível. Essa impossibilidade se dá pelo nosso contexto que não se reduz a um relativismo grosseiro, mas que já é ciente da dificuldade de se alcançar verdades duradouras e que faz uso dessa convicção para produzir arte. Não se trata aqui de se perguntar o que é ou não arte, nem como defini-la, mas sim de tentar identificar na obra não mais (somente) sua técnica, sua dificuldade ou seu sentido verdadeiro imposto pelo autor, e sim os efeitos que a obra gerará ao seu redor, ou ao seu interlocutor. É justamente no deslocamento da análise da causa para o efeito que se consegue obter respostas mais sólidas para eliminar de vez a necessidade da dúvida sobre o que é arte. Para simplificar o que estou dizendo recorro a um exemplo.


Um grupo de pessoas (atores?) resolveram ter a brilhante idéia de se unirem e "causarem cenas" no espaço público (majoritariamente) de Nova York. O grupo, denominado ImprovEverywhere, atua da seguinte forma. Bolam um plano que vai de uma tentativa de um suicídio através de um pulo do meio fio,um fake-show do U2 em cima de um prédio até a entrada de cem pessoas numa loja Abercrombie & Fitch sem camisa. Todos esses eventos precisam de um alto contingente de participantes cientes do plano para agregar "veracidade" ao acontecimento. E os interlocutores, inevitavelmente, irão se deparar com os live-acts, pois trata-se de um espaço público. Os artistas, ao serem perguntados sobre o porquê de tais empreitadas respondem dizendo que querem "melhorar a vida das pessoas". Romper com o cotidiano prosaico de uma metropóle altamente ordenada em que tudo aparenta demasiadamente lógico. E claro, fazê-las participar dessa melhoria, porque sem elas (sem o interlocutor onde reside o efeito) de nada vale a mensagem (a obra em si). Não me esqueço de um artigo do Contardo Calligaris publicado na Folha que dizia que a importância da natureza-morta era saltar aos olhos do interlocutor as frutas artificiais em cima da mesa que ele nunca parou pra ver*. O que nos leva a concluir, por fim, que a arte acompanha a realidade em que ela está vinculada. Uma realidade que não cabem mais quadros dentro de museus, técnicas eruditas e ininteligíveis de criação artística, portanto, anti-democráticas, e que toda forma de expressão humana é, ao menos, potencialmente artística quando devidamente evidenciado seu efeito. Daí decorre a imperiosa necessidade de se revisar as convenções sobre a nossa noção do que é arte. Apreciação do belo? Representação fidedigna da realidade? Moldura? Museu? "Canônes" que já caíram por terra, mas que persistem para quem se vale de critérios antigos para julgar o que é novo, característica clara de conservadorismo, medo de mudança. E novo não no sentido de original, mas no sentido que tomo emprestado de Foucault quando disse que "o novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta".


Referência: http://www.improveverywhere.com

*- Conclusão do autor.