sábado, 30 de maio de 2009

Regra de ouro.

Se escrever bem fosse escrever pra você mesmo, eu seria escritor.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Vir'essa boca pra lá"

Desligando o telefone com minha mãe percebo o quanto ainda as gentes preservam um pudor religioso às palavras. E não tem nada de moral nele, por exemplo, de falar cu. É um medo que as palavras venham a se concretizar. A dor de garganta do meu irmão, talvez quando dita, possa piorar a condição dele. Esse raciocínio é extremamente místico, a palavra, por si só, não gera efeito na realidade. O máximo que ela causa é um efeito no interlocutor, alguma ofensa ou agrado. Seria fascinante construir todo um romance baseado nesse conteúdo místico das palavras e conformar toda uma descrição presente à construção de um futuro. Afastando assim o paradoxo que essa ideia contém.


p.S: Entendo agora porque meu professor de Direito de Família e Sucessões disse que o Brasil é um dos países em que menos se faz testamentos.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Omitir é afirmar duas vezes.

Em toda forma de convencimento feminino há uma margem irracional de charme difícil de resistir. Uma resposta charmosa a essa persuasão é não percebê-la junto com um sonoro não aos pedidos. Independência também é charme. E indiferença, estilo.

Cansado de autores.

As vozes que povoam nossa mente emudecem com a leitura. Substitui-se todo o burburinho intelectual por um só autor. O que aparenta aliviante num primeiro momento, atormenta ainda mais quando encerra. Ler só aumenta o número de vozes. O que faz da leitura o exercício da solidão diante da multidão que cada um tem dentro de si.

sábado, 23 de maio de 2009

Linguagem.

Já faz mais de dois anos que brigo com a verdade. Hoje, lendo uma introdução à Lógica, me surpreendi com a seguinte frase: verdade é sentido. Soou tão evidente. Sempre tomei rumos diferentes, mais combativos, pra lidar com a maldita. E com um estilingue o sujeito derruba ela.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Proust.

Quanto mais distinguo a boa escrita da escrita ruim, mais tenho horror a minha. Não que eu desista de escrever. A boa escrita me traz uma sensação de que todo o texto é preenchido. Por exemplo, aí viu? Já lancei uma expressão vazia. Sem contar o pouco que se usa pra dizer muito. Podem até entender a originalidade como parte de uma boa escrita, no que discordo. A "originalidade" é o ponto de partida, por favor, se queres falar de globalização não escreva. Junto a isso tem a sonoridade das palavras, o tamanho dos períodos. Coisas mortas também que quem usa enterra o próprio texto, vejam só o quanto brocha a escrita colocar esse conectivo agora. Ademais, pronto, fim do texto.

domingo, 17 de maio de 2009

"A constituição jovem."

Fico feliz em saber que uma parcela imensa da população mundial não lê jurisprudência. Esta leitura é a interpretação de um vômito. Não há a menor preocupação com concisão, estilo, é um esparramado jurídico. Até aí tudo bem, sem pretensões literárias, que quando ocorrem soam sempre ostensivas ao ponto de darem ânsia, de vômito claro. Mas piora quando não há preocupação de inteligibilidade, e não há. Evidente que não, jurista escreve de si para os outros da mesma corja. Ser incompreendido é ser irresponsável nesta matéria. Não me interessa se a linguagem jurídica precisa lapidar os conceitos em busca de um conteúdo unívoco. Flaubert tinha uma preocupação análoga. Não quero comparar o STF com Flaubert, apenas admitir a possibilidade de se fazer algo mais enxugado com o mesmo fim. Revisor de decisões daria um bom cargo público.

sábado, 16 de maio de 2009

Todo mundo é dois.

Se tacassem fogo na minha biblioteca eu acudiria poucos livros. Tem muita coisa aqui já, mas pouca coisa realmente lida. Enxergo isso com Fernando Pessoa, comecei lendo Alberto Caeiro, numa época intothewild. Hoje leio Barão de Teive e as cartas dele pedindo dinheiro aos amigos, ou mesmo a notícia de jornal que divulga sua morte. O aprofundamento vertical de um autor é incrível, mas mostra que não dá pra conhecer de tudo. Já tentei ler Crime e Castigo trêz vezes, nunca passei da página 30 e poucos. Aliás, a literatura russa inteira passou em branco na minha vida. Maiakovski tem espaço aqui, com "A minha descoberta da América", livro que eu não tenho lembrança alguma a não ser a capa pintada com as cores da bandeira dos EUA num tom de giz. Tem também "Pais e filhos", zero. Ivan Ilitch, do Tolstoi, também nada. Sei que o importante não é lembrar dos livros que lemos, mas analisar o quanto eles te mudam. A Rússia não me mudou.
Já com Pessoa sinto que convivo com ele. Dá até pra projetar diálogos, enxergar seu estilo de vida. Ter seu autor como favorito é se encontrar nele. Não por mera identificação, mas por interlocução. Ao lê-lo vocês conversam ao ponto de você perceber que o diálogo é entre você e você mesmo, sendo o autor apenas o meio dessa relação.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

"O sono é um caminhão."

Descobri recentemente o momento em que apagamos no sono. Esta é uma descoberta incrível, muito maior que a do temaki de salmão com farofa de pistache em que me senti comendo uma arabesque de Debussy. Na verdade não é bem o momento exato, mas sempre antecede a ele, então serve para tirarmos essa dúvida infantil. Quando estiver naquela fase between the click of a light and the start of a dream é só prestar atenção no seu olho, haverá um momento em que parece que há uma camada interna nele que fecha também. Eu chutaria que é minha alma fechando alguma coisa dela lá, mas é presunção demais. Esta é uma informação interessante para aqueles que vão até Roma antes do sono, passeiam pela sua rotina, tentam conceber o disco de um lado só de um conto do Borges, tiram conclusões para toda a vida, anotam sacadas, formam discursos para apresentar a alguém, montam linhas de argumento etc. etc. Nesse fechar da persiana dos olhos convém deslocar o máximo de concentração para o sono, aumentando as chances do caminhão passar.

"Ao tempo Deus dá habeas-corpus"

Texto pro lixo.

sábado, 9 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Farmácia.

Se algum dia eu produzir algo acadêmico prometo me filiar na corrente do empirismo cego. Tem expressão de maior efeito que essa? Não é pelo paradoxo óbvio, é pelo modo como o empirista cego trabalha, tateando os objetos, analisando suas disposições. O como do porquê.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Pergunta.

Ando atrás de alguém que não consegue conceber a Torre Eifell.

O que foi que eu disse? pt. 2

Há momentos numa partida de xadrez em que eu me tenho por sortudo. Visualizo meu jogo e concluo que a estrutura dele está bem montada, para cada movimento do adversário há uma boa resposta com uma peça minha. A questão é que eu não faço ideia de como as coisas chegaram a ser assim, e se foi um processo pensado, daí atribuir sorte a isso. No entanto sorte e matemática não se conciliam. Penso se não há uma espécie de intuitivação da lógica atrás do jogo alcançada pelo número de partidas, mas não procede. Não estudo lógica e sou um inútil em números, portanto não tenho prática pra moldar futuras experiências, e nunca estudei xadrez, nem jogo muito. Pergunto se não sou eu que, naquele momento, consigo visualizar um número maior de jogadas, e provavelmente é este o argumento contra a sorte. Mas o arranjo do jogo é tão esteticamente prazeroso, até mesmo especular, que distorce meu julgamento a respeito dessa estrutura vantajosa, o que me leva à pergunta errada. Não é como vim parar aqui nesse arranjo? mas sim por que estou visualizando tantas jogadas?
Nesse sentido, a sacada que tenho diante do jogo, ao descobri-lo daquela maneira, traz consigo uma sensação de prazer dada pelo domínio daquele instante da partida, me levando a um raciocínio sobre o que senti, não tanto sobre o racional por trás de toda aquela visualização. Estranho como as sensações, mesmo que só por aquele momento, alocam o sentido que você vai dar às coisas.

O que foi que eu disse?

Quando somos convocados instantaneamente por alguém a falar de algum tema polêmico o senso comum costuma ser uma reação. Aborto? Morte, direito à vida, bebê, proteção etc. etc. Isso é desesperador.
É como se as ideias fossem formadas sem uma gota de reflexão, com argumentos na forma de imagens, estanques e terminados. Estranho que a reflexão que foge ao senso comum, a crítica, chega à mesma forma quando esgota o tema. A pretensão de esgotamento vicia a reflexão.

sábado, 2 de maio de 2009

Presunção.

"pretty much it."

"Esta é a questão. Um prazer que se aprofunda às vezes até comunicar uma ilusão de compreensão íntima do objecto que a causa; um prazer que excita a inteligência, a desafia e lhe faz apreciar a sua derrota; mais, um prazer que pode irritar a estranha necessidade de produzir, ou de reproduzir a coisa, o acontecimento, o objecto ou o estado, ao qual parece irmanado, e que se torna por isso uma fonte de actvidade sem termo certo, capaz de impor uma disciplina, um zelo, tormentos a toda uma vida, e de a preencher, senão mesmo de a transbordar(...)"