sábado, 8 de dezembro de 2007

trava língua - pedro - III

Faço desta minha última réplica. Discutir com você é desgastante e frita meu cérebro. E é também por isso que a discussão adquire qualidade.

O exercício de governo não pode ser aspirante, há sempre uma urgência nas tomadas de decisões de um chefe do Executivo. Eu espero ter deixado bem claro que toda a discussão envolve: Lula, governo em exercício e realidade imediata. Ela de longe passa por um conteúdo programático. O máximo que ela alcança é a futura eleição presidencial e os possíveis argumentos oposicionistas que virão. Vamos nos ater ao início da discussão porque, ao meu ver, você lançou macroquestões que fogem da alçada desta conversa. Você me largou numa situação perigosa ao dizer que tudo o que digo resume-se na continuidade, aceitação e no "lidar" com os problemas, não me atentando a uma resolução a longo prazo para acabar de vez com eles. De fato, do ponto de vista de um mandato, a efetividade deste anda junto com a proximidade da sua realidade. E não adianta se propor a um projeto de governo desconectado do contexto contemporâneo, mesmo porque as ações ditas imediatistas têm fortes consequências futuras. O caso da ação afirmativa é clássico. Prover cotas é um mecanismo de inserção social que se desdobra em duas pontas, numa instantânea que é o curso superior (não quero entrar no mérito de como o sujeito irá se formar, ou se ele conseguirá), e noutra que será uma futura família cujo pai subiu um degrau, havendo maiores chances de seus filhos também terem acesso ao curso superior. Voltamos a uma questão que não pode ser considerada como cliché que é a igualdade de oportunidade. Aonde a língua entra nisso tudo? Pra começar ela não tem que entrar. Deve haver um reconhecimento de qualquer forma de utilização da língua (inteligível) partindo de um pressuposto de que seja qual for o uso, trata-se do mesmo idioma, o português, portanto qualquer tipo de manifestação da linguagem deve ser levado em conta igualmente. A minha insistência vai no sentido de não enxergar na linguagem um critério seletivo e diferenciador, quer algo mais inclusivo que isso? Agora aqui, ironicamente, eu caio no mesmo problema que ao meu ver você criou, o problema do ideal. Eu tendo a preferir perspectivas governamentais (executivas) que lidam com a realidade e não programando ela. Isso antagoniza ainda mais os posicionamentos ideológicos dessa discussão. E prefiro deixar a parte programática para o campo privado, mas para explicar tal tipo de coisa me custaria muito trabalho e eu acho que ainda nem tenho capacidade para tamanha empreitada.

Você dizer que as decisões do chefe do Executivo são guiadas por crenças, dogmas, valores pessoais é muito arriscado. Primeiro porque a decisão de um presidente fica delimitada por procedimentos racionais estabelecidos por uma democracia. Checks and balances de outros poderes (legislativo e judiciário), o próprio ordenamento jurídico estabelece sobre a matéria que o presidente pode trabalhar em cima, além de cobrar a necessidade de outras. Você cai no mesmo problema de discricionariedade no direito e na decisão de um juiz, que pode até existir, mas é limitado pelo próprio regime em que ele acontece. Os valores pessoais de um candidato à presidente são facilmente verificáveis em projetos de governo nas vésperas de eleição (fome zero!?), mas o resultado disso no exercício de um mandato é inócuo. Sou bastante cético com argumentos do tipo "Lula pensa assim, logo vai o governo vai ser assim", eles não convencem e são muito difíceis de se sustentar quando sujeitos a um crivo crítico. É uma big picture que o presidente faz parte e não contrário, sendo o presidente a big picture do nosso país. Daí minha implicância com a direita daqui, ela falha até pra argumentar. Se ela se propusesse a um debate não raivoso, que se distanciasse da "pessoalidade" dos argumentos ela estaria preparada não para discutir com a esquerda que também não é lá muito essas coisas, mas com a sociedade em si que, enfim, aceitaria os argumentos podendo até se convencer deles. Hoje o que eu assisto é uma elite desesperada que se alimenta de si mesma, porque convive consigo mesma e acha que aquilo que ela pensa é o que está em voga. O quão absurdo soa para as outras pessoas que convivo (portando da elite também) quando digo: "votei no Lula", "sou de esquerda" (isso não está relacionado) etc. é um sintoma da irrealidade que nós vivemos. Não devemos nunca perder nosso (bom) senso de maioria, foi ela que elegeu nosso presidente, uma maioria carente de requisitos básicos anteriores a uma educação no ensino superior ou técnico. Nunca esta será dispensável, ainda mais hoje, mas vamos por partes para que um dia todos consigam alcançar a oportunidade, para só assim serem capazes de demonstrar mérito.

Não confunda as competências. Competência política o nosso presidente tem, carisma, legitimidade democrática, partido etc. Competência técnica eu diria que não, mas pra quê? O cargo dele é político e representativo. Compare os governos FHC e Lula e, ao mesmo tempo, compare as formações dos dois, é abissal a diferença na primeira comparação? Porque na segunda é. Logo, não vejo ligação nessas duas comparações. Eu insisto, tudo que é pessoal numa arena política é a priori superado, quem faz uso disso se encontra numa situação de apelo a armas ignoradas num jogo político. A direita não percebe que cada tiro seu sai pela culatra. E eu acho que o FHC já percebeu isso, ele está muito mais manso e adequado às delimitações racionais de um debate, até fazendo piadinhas com seu opositor.

Sugestão de leitura: Sabatina com FHC na Folha.

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