sábado, 2 de junho de 2007

O crepúsculo da Ideologia

Partindo de uma análise da comunidade EDESPIANA, obtive algumas conclusões sobre as questões (a)políticas que hoje nos permeiam. Nossa Escola foi fundada com a intenção de ser pequena, 50 alunos são premiados por um “afunilamento seletivo” bastante diverso dos outros vestibulares. Essa diferenciação se faz, ouso dizer, através da alta carga cultural exigida pela nossa tão distinta prova. E ela traz para a EDESP um aluno com um mínimo de olhar crítico a respeito do mundo. É exigido isso, e dificilmente se passa num vestibular como esse sem essa valiosa característica.


Esse olhar pressupõe, também, uma capacidade de contextualização política.


É claro que pode existir crítica sem política (no sentido de Governo-População mesmo) e vice-versa. A questão aqui não é essa. O mérito aqui é quando não há aspectos políticos discutidos. Mesmo que estejam escancarados nos jornais e em todos os meios de comunicação, a discussão não se adentra de maneira ideológica na nossa Escola. Falta um julgamento da política, não por falta de competência, que nos é exigida, mas por outros fatores.


Não é do “nosso” interesse (assim pressuponho) adquirir um posicionamento ideológico. Queremos instrumentalizá-lo. Ver os aspectos positivos e negativos de determinada posição, baseada numa análise cética e fria da política. Esquerda e direita são meios para que se alcance determinados fins. Portanto, posicionar-se permanentemente é um prejuízo, pois a minha política (conduta) depende da minha situação.


Então, “vestir uma camisa” é coisa do passado. Deixado para nossos pais evocarem em discursos de períodos ditatoriais que simplesmente não procedem. Não quero cair aqui num saudosismo de quando a atuação jovem era politizada. Mas sim revelar uma nova tendência da ideologia, que ganha forma utilitarista e perde o sentido de posicionamento (de ponto de vista a ser defendido com vigor político).


Ideologia em forma de instrumento separa-se do vigor político para cair em mero ceticismo analítico, desprovido de qualquer força de mudança (manifestação, reivindicação etc..). E sendo assim perde todo o sentido de ideologia para se transformar em análise.


Fiquem agora com uma carta de um leitor publicada no dia 30 de maio de 2007 na Folha de São Paulo:


“No segundo semestre de 1968, na FGV, todos os alunos foram reprovados por faltas por causa de uma greve de 19 dias. Se o mesmo regulamento fosse aplicado na USP, onde há um movimento patrocinado por uma minoria idiotizada pelo vírus da ideologia, tenho certeza de que a palavra greve seria evitada até em pensamento”.

(faltou caracteres?!)

Nessa carta, já se torna perceptível a noção de ideologia que estou discorrendo. Que se divide em duas formas: uma política e uma analítica. Ambas não são excludentes entre si e podem sim coexistir. Mas veja bem o olhar que este leitor tem sobre a primeira. Atuação política em forma de vírus? Que se espalha de forma a causar prejuízo à situação? Estranho que quanto mais utilitário e, conseqüentemente, mais próximo da segunda forma, fica o conceito de ideologia, menor é a força de mudança, de oposição que ele pode gerar. Vejamos a repercussão da ocupação uspiana no prédio da reitoria.


“Serra cede e muda decretos que diminuiriam autonomia de universidades(...). O novo decreto exclui as universidades e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) de três decretos: o que proíbe a contratação de pessoal (51.471), o que exige a reavaliação de contratos e licitações (51.473) e o que estabeleceu a criação da Comissão de Política Salarial, subordinada o governador, que "fixa as diretrizes (..) em assuntos de política salarial".


Qual o tipo de ideologia empregada nas manifestações, reivindicações e ocupações? Política ou analítica? Obviamente a primeira. Agora, é evidente que o equilíbrio dessas duas formas seria o melhor caminho para se resolver um problema que envolva Sociedade e Estado. E que também no conceito de ideologia devem estar embutidas essas duas formas, para justamente não se cair na decadência da política como modo de participação além-voto.

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