sábado, 12 de janeiro de 2008

Arte em desdobramento (contraponto ao artigo anterior)

O colega, e também amigo, Pedro no seu artigo "Quando lixo vira arte" reafirmou essa tendência conservadora que insiste em valer-se dos mesmos critérios que definem a "arte convencional" para a arte contemporânea. Equívoco este, já verificado por Marcelo Coelho, colunista da Folha de São Paulo, que entendeu na famosa crítica de Monteiro Lobato às obras de Anita Malfatti a utilização de um "método de julgar uma obra nova a partir de critérios já estabelecidos, anteriores e externos à própria obra". Antes de me aprofundar nesse tema, preciso me explicar quanto à questão de como conceitualizar arte convencional e arte contemporânea. Chamarei de arte convencional aquela que tem como características principais o fato de se encontrar presa num quadro e o esforço de representar uma realidade. Já no campo da arte contemporânea não tentarei estabilizar qualquer tipo de definição, mesmo porque não acho possível. Essa impossibilidade se dá pelo nosso contexto que não se reduz a um relativismo grosseiro, mas que já é ciente da dificuldade de se alcançar verdades duradouras e que faz uso dessa convicção para produzir arte. Não se trata aqui de se perguntar o que é ou não arte, nem como defini-la, mas sim de tentar identificar na obra não mais (somente) sua técnica, sua dificuldade ou seu sentido verdadeiro imposto pelo autor, e sim os efeitos que a obra gerará ao seu redor, ou ao seu interlocutor. É justamente no deslocamento da análise da causa para o efeito que se consegue obter respostas mais sólidas para eliminar de vez a necessidade da dúvida sobre o que é arte. Para simplificar o que estou dizendo recorro a um exemplo.


Um grupo de pessoas (atores?) resolveram ter a brilhante idéia de se unirem e "causarem cenas" no espaço público (majoritariamente) de Nova York. O grupo, denominado ImprovEverywhere, atua da seguinte forma. Bolam um plano que vai de uma tentativa de um suicídio através de um pulo do meio fio,um fake-show do U2 em cima de um prédio até a entrada de cem pessoas numa loja Abercrombie & Fitch sem camisa. Todos esses eventos precisam de um alto contingente de participantes cientes do plano para agregar "veracidade" ao acontecimento. E os interlocutores, inevitavelmente, irão se deparar com os live-acts, pois trata-se de um espaço público. Os artistas, ao serem perguntados sobre o porquê de tais empreitadas respondem dizendo que querem "melhorar a vida das pessoas". Romper com o cotidiano prosaico de uma metropóle altamente ordenada em que tudo aparenta demasiadamente lógico. E claro, fazê-las participar dessa melhoria, porque sem elas (sem o interlocutor onde reside o efeito) de nada vale a mensagem (a obra em si). Não me esqueço de um artigo do Contardo Calligaris publicado na Folha que dizia que a importância da natureza-morta era saltar aos olhos do interlocutor as frutas artificiais em cima da mesa que ele nunca parou pra ver*. O que nos leva a concluir, por fim, que a arte acompanha a realidade em que ela está vinculada. Uma realidade que não cabem mais quadros dentro de museus, técnicas eruditas e ininteligíveis de criação artística, portanto, anti-democráticas, e que toda forma de expressão humana é, ao menos, potencialmente artística quando devidamente evidenciado seu efeito. Daí decorre a imperiosa necessidade de se revisar as convenções sobre a nossa noção do que é arte. Apreciação do belo? Representação fidedigna da realidade? Moldura? Museu? "Canônes" que já caíram por terra, mas que persistem para quem se vale de critérios antigos para julgar o que é novo, característica clara de conservadorismo, medo de mudança. E novo não no sentido de original, mas no sentido que tomo emprestado de Foucault quando disse que "o novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta".


Referência: http://www.improveverywhere.com

*- Conclusão do autor.

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